Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.
O confronto que se anuncia nas eleições presidenciais francesas de 2027, entre os prováveis candidatos de extrema direita, Marine Le Pen, e de esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, tem como pano de fundo o duelo entre os dois magnatas da mídia. Nos últimos anos, o bilionário francês Vincent Bolloré construiu um império que reúne emissoras de rádio e TV como Europe1, Canal+ e Cnews. Do outro lado, a esquerda conta com o apoio explícito de outro rico empresário, Matthieu Pigasse, conhecido como o “banqueiro de esquerda”, aponta a revista L’Express desta semana. Nos veículos de Bolloré, interferências editoriais nos veículos, cada vez mais à direita, aconteceram aos poucos e se consolidaram. Lideranças ultraconservadoras encontram palco para se expressar livremente. Já Pigasse tem um longo histórico de investimentos na mídia progressista, como os jornais Libération e Le Monde, além de uma série de sites e revistas independentes, como Les Inrocks. O apoio ao Partido Socialista também é antigo, mas desde que o PS perdeu influência em meio à ascensão de outras correntes da esquerda, inclusive o partido França Insubmissa (LFI), o empresário tem impulsionado também os veículos simpatizantes à sigla de Mélenchon. O carro-chefe do “combate à extrema direita” de Pigasse, como ele próprio definiu, é a Radio Nova, cuja audiência dobrou de 2025 para 2026. “Os programas assumiram uma virada militante”, uma “escolha deliberada de Pigasse em sua batalha cultural” contra o império de Vincent Bolloré, salienta L’express. Influência no regime bolivariano da Venezuela Uma amostra do seu engajamento político ocorreu no início do ano, quando seu banco Centerview Partners conseguiu vencer o contrato de renegociação da dívida da Venezuela, mostra reportagem de capa da Le Point esta semana. Diante do risco de vitória do Reunião Nacional nas eleições previstas para abril e maio, o próprio Matthieu Pigasse “não descarta” até se candidatar – o que muitos consideram como uma “jogada oportunista para se promover”, observa a publicação.
11/07/2026 • 02:01
Às vésperas da próxima cúpula da Otan, sediada em Ancara, na Turquia, os países europeus se preparam para voltarem a ser cobrados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os seus gastos com Defesa. A ameaça do líder republicano de retirar o seu país da aliança militar atlântica, repetida diversas vezes, tende a não se concretizar, agora que a maioria dos países do bloco acelerou as despesas com a pasta. Em 2025, os valores subiram 20% segundo dados da própria Otan, e todos já atingiu a meta mínima de 2% do PIB destinados à defesa. Entre os europeus, também avança a reflexão sobre como o bloco pode reforçar a sua própria proteção e quebrar a dependência do “padrinho americano”, desde o aumento das tensões entre os aliados. Na cúpula prevista para os dias 7 e 8 de julho, “ninguém tem dúvida sobre quem fará o papel de líder: Donald Trump perguntará a cada um dos 31 outros membros da aliança quanto eles subiram os seus orçamentos militares, e vai lhes classificar conforme esse critério simples”, antecipa a revista francesa L’Express, na edição desta semana. “Os Estados Unidos provavelmente não deixarão a Otan porque a postura de padrinho incontestável da família, ao qual cada membro deve demonstrar fidelidade, lhe convém”, salienta a publicação. Além disso, um recente reestruturação do comando integrado da organização colocou nas mãos do Pentágono americano a chefia do Exército, da Marinha e da Aeronáutica da aliança, lembra L’Express. Washington não tem interesse em deixar nas mãos dos próprios europeus as forças aliadas no continente, no qual está engajado desde os anos 1950. Esse controle é fundamental para o monitoramento das bombas atômicas na Europa, pilares do guarda-chuva nuclear americano. Redução da participação americana O governo do presidente informou aos aliados, em maio, sobre sua decisão de reduzir a presença militar na Europa. No fim de junho, o secretário-geral da organização, Mark Rutte, foi aos Estados Unidos explicar a Trump, de forma didática, o quanto o presidente conseguiu acelerar a guinada dos gastos europeus com proteção e capacidade de ataque. É esperado que a Otan anuncie, durante a reunião anual em Ancara, que os europeus supriram quase todas as lacunas deixadas por Wasington nos planos de defesa coletiva, embora ainda não tenha sido possível compensar a retirada de um bombardeiro estratégico disponibilizado pelos americanos. Na última cúpula da aliança atlântica, marcada pela forte pressão de Trump, os países da Otan concordaram em destinar pelo menos 5% de seu Produto Interno Bruto (PIB) a gastos com segurança até 2035. Espanha "decepcionou" "Alguns aliados estão fazendo mais do que outros, e temos países como a Polônia, as nações escandinavas, os Estados bálticos e a Alemanha liderando o grupo", afirmou o embaixador americano na Otan, Matt Whittaker, em uma coletiva de imprensa. "Mas há alguns que estão ficando para trás, seja porque não estão gastando o suficiente ou porque não estão em uma trajetória confiável para cumprir os compromissos assumidos em Haia", acrescentou ele, sem citar países específicos. A Espanha é um dos países europeus que "decepcionaram" o presidente dos Estados Unidos ao se recusarem a atingir a marca de 5%. Já na cúpula de Haia, Madri sustentava que alcançar esse percentual não era necessário para cumprir os requisitos de capacidade de defesa da Otan. RFI com Reuters e AFP
04/07/2026 • 01:53
As relações entre a França e os Estados Unidos são marcadas por grande proximidade, mas também por conflitos célebres. Às vésperas das comemorações da independência americana, a revista Le Parisien Weekend desta semana destaca a história turbulenta de amizade entre os dois países e relembra alguns de seus momentos mais importantes. Os Estados Unidos comemoram no próximo dia 4 de julho os 250 anos de sua declaração de independência da Inglaterra do rei George III, em 1776. Entre os personagens centrais desse processo está o general La Fayette, transformado em um verdadeiro mito pelos americanos. A publicação destaca ainda a vitória francesa na Batalha de Chesapeake, considerada decisiva para o desfecho da Guerra de Independência dos Estados Unidos. O conflito foi oficialmente encerrado por uma série de tratados assinados em 1783, principalmente em Paris e Versalhes, o que simboliza o papel fundamental desempenhado pela França. No entanto, a revista lembra que George Washington não demorou a se aproximar novamente de Londres, firmando acordos comerciais com os britânicos à revelia do rei francês Luís XVI. A revista também aborda os presentes trocados entre as duas nações, entre eles a Estátua da Liberdade, financiada em grande parte pelo povo francês. Dessa forma, a gigantesca escultura é apresentada como “um presente do povo francês ao povo americano”. Outro destaque é o engajamento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, bem como as inúmeras ligações culturais e econômicas entre os dois países. Le Parisien Weekend lembra que escritores americanos como William Faulkner e Ernest Hemingway viveram na França, enquanto artistas franceses alcançaram reconhecimento em Hollywood, como Marion Cotillard, Jean Dujardin e Simone Signoret, todos vencedores do Oscar. Na música, nomes como Édith Piaf e Charles Aznavour também conquistaram o público americano. A influência francesa se estende ainda à gastronomia, com exemplos populares como as famosas french fries. Apesar dessa longa história de cooperação, a amizade entre França e Estados Unidos permanece marcada, segundo a revista, por uma permanente disputa de influência e poder. Constrangimentos A revista Le Point também dedica espaço ao aniversário da independência americana. Para a publicação, ao receber Donald Trump em Versalhes, após a cúpula do G7 em Évian, Emmanuel Macron colocou a França em posição privilegiada nas celebrações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. A publicação semanal relembra diversas comemorações realizadas ao longo do tempo entre os dois países para celebrar a Declaração de Independência, mas observa que, em muitos casos, algum tipo de constrangimento diplomático de uma das partes acabava ofuscando as festividades. O texto conclui afirmando que toda comemoração é fruto de sua época e reflete as circunstâncias políticas e históricas do momento. Segundo a revista, essa lógica da memória também se aplica naturalmente às celebrações do 250º aniversário da independência americana.
27/06/2026 • 02:06
Dez anos após o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, a avaliação predominante no país é negativa. Segundo uma longa reportagem da revista semanal L’Express, o Brexit deixou o Reino Unido mais pobre, mais dividido e politicamente instável, além de ter enfraquecido sua posição internacional. O governo britânico descarta um retorno à União Europeia, mas a publicação francesa aponta que o país vem, na prática, se reaproximando do bloco. Apesar do diagnóstico crítico da imprensa francesa, o contexto político britânico mostra outra realidade. Hoje, a maioria da população considera o Brexit um erro. Ainda assim, nenhum grande partido defende sua reversão. O tema virou tabu no debate político. A agenda é dominada por outras prioridades, como o custo de vida, a imigração e a crise dos serviços públicos. Nesse cenário, cresce o peso de forças populistas e o receio de reabrir uma discussão altamente polarizadora. O texto da L’Express relembra a noite de 23 de junho de 2016, quando a população do Reino Unido votou pela saída do bloco. Em seguida, mostra como, quase uma década depois, o país vem se reaproximando da União Europeia na prática. A reportagem cita recentes acordos comerciais, a cooperação em defesa e o retorno previsto ao programa Erasmus. Esse movimento reflete uma opinião pública cada vez mais favorável a uma reaproximação com a UE. Dados citados pela revista indicam perdas econômicas significativas: queda do PIB por habitante entre 6% e 8%, redução dos investimentos estrangeiros e impacto negativo no emprego e na produtividade. Ao mesmo tempo, o país registra piora nos indicadores sociais, como a queda no ranking global de felicidade. Crescimento da extrema direita no Reino Unido O Brexit também teria provocado uma transformação política profunda, com o avanço de partidos populistas e uma instabilidade inédita, com seis primeiros-ministros em dez anos. Além disso, aprofundou divisões internas, especialmente entre as quatro nações do Reino Unido, onde crescem movimentos independentistas. Já o editorial da revista Le Point, publicado nesta quinta-feira (18), não menciona diretamente o Brexit, mas descreve tensões identitárias e sociais, como o recente caso das violentas revoltas em Belfast, na Irlanda do Norte. Provocadas por um ataque com faca cometido por um refugiado sudanês, elas se espalharam por outras cidades, como Glasgow e Edimburgo, relembra o editorial. Leia também'Nada justifica a violência', diz Starmer após protesto anti-imigração na Irlanda do Norte A Le Point insiste menos na ruptura com a União Europeia e mais nas tensões ligadas à imigração e ao multiculturalismo. Dois diagnósticos distintos, portanto, que apontam para uma mesma realidade: a de um Reino Unido cada vez mais fragilizado socialmente. A revista francesa questiona e responde: “Essa sociedade britânica à deriva seria o destino que espera a França amanhã? Por enquanto, trata-se de uma versão agravada do nosso país”. Em seguida, compara o primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer a um “sub-Macron”, criticando-o por encarnar, assim como o presidente francês, “uma impotência inflada, com ainda menos visão”. Leia também"Humilhação": popularidade de Macron despenca em meio a caos político na França
20/06/2026 • 02:04
Um dos temas que mais ganham destaque na imprensa semanal francesa é o avanço da inteligência artificial nos setores de defesa e estratégia. Antes associada principalmente à inovação econômica, a tecnologia passa a ocupar um papel central nas disputas de poder, tanto no campo militar, em operações terrestres, quanto no espaço, na corrida por capacidade orbital. Nesse cenário, a empresa francesa Mistral busca reduzir a dependência europeia em relação às tecnologias militares dos Estados Unidos. Em reportagem publicada pela revista L’Express esta semana, intitulada “Inteligência Artificial é o novo grande medo”, a start-up francesa Mistral AI aparece no centro dessa transformação. O movimento reflete as novas tensões geopolíticas globais e a busca europeia por autonomia estratégica. A empresa, considerada uma das principais apostas da French Tech, está agora ampliando seu campo de atuação para além das aplicações civis, entrando de forma direta no universo militar. Segundo a revista, a Mistral firmou parcerias com o Ministério das Forças Armadas francês e com o grupo Airbus, com o objetivo de integrar seus modelos de inteligência artificial a diferentes frentes, desde sistemas aeronáuticos a operações de defesa e análise de dados estratégicos. Em um contexto marcado pela guerra na Ucrânia, pelo reposicionamento das grandes potências e pela corrida tecnológica global, a inteligência artificial passou a ser vista como um elemento central de dissuasão militar. Como resume o CEO da empresa, Arthur Mensch, citado pela L’Express, a capacidade de responder com sistemas baseados em IA se tornou indispensável diante de exércitos que já utilizam amplamente essa tecnologia, como no caso de drones militares. Leia tambémUcrânia aposta em drones para resistir a aumento de ataques da Rússia Soberania tecnológica Outro ponto importante levantado pela reportagem é a questão da soberania tecnológica. Ao desenvolver soluções próprias e implantá-las inclusive em redes classificadas do Estado, a Mistral AI se insere em uma estratégia mais ampla de reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a reportagem mostra que, apesar das ambições francesas e das iniciativas europeias, especialistas reconhecem que as soluções americanas continuam à frente. Essa evolução dialoga diretamente com outra reportagem publicada pela revista Le Point, que comenta o domínio crescente da SpaceX, de Elon Musk, sobre a órbita baixa da Terra. Segundo a revista, a empresa já controla mais de 10 mil satélites, o que significa dois terços dos satélites ativos no mundo e, na prática, impõe suas próprias regras de circulação no espaço, obrigando até agências públicas a coordenarem seus movimentos para evitar colisões. “Somos obrigados a avisar a SpaceX quando transitamos por essa altitude, se não quisermos ser destruídos” por uma colisão, explicou Caroline Laurent, diretora de sistemas orbitais e aplicações do Centro Nacional de Estudos Espaciais (Cnes), em referência aos satélites de observação militar da França, durante um fórum, organizado pela revista Le Point em abril, em Paris. Se, no caso da Mistral, a questão central é a autonomia tecnológica europeia frente à hegemonia americana em inteligência artificial, no caso da SpaceX, o desafio diz respeito à apropriação de um espaço físico estratégico por uma empresa privada. Controle de dados Os dois fenômenos citados se encontram em um ponto comum destacado nas duas revistas: o controle dos dados. A Mistral AI busca estruturar a superioridade informacional no campo de batalha, analisando grandes volumes de dados para orientar decisões militares. Já a SpaceX, com seus satélites, não apenas garante conectividade global, mas também se posiciona para mapear, vigiar e potencialmente controlar tudo o que circula nos “data centers em órbita”. Nos dois casos, a Europa aparece em posição reativa. Na França, a aposta recai sobre atores nacionais, como a Mistral, para reduzir a dependência tecnológica. Já no setor espacial, especialistas ouvidos pela Le Point reconhecem que o continente ainda está distante de oferecer uma alternativa à altura da liderança norte-americana, seja no setor público ou no privado.
13/06/2026 • 02:22
As revistas semanais francesas trazem a Inteligência Artificial como destaque em reportagens. As publicações exploram desde as críticas aos grandes líderes do setor até as aplicações práticas que estão transformando o cotidiano das pessoas. Segundo a L'Obs, vivemos um período de "IA ansiedade", marcado pela crescente preocupação com os efeitos nocivos dessa tecnologia na sociedade, como o impacto ambiental dos centros de dados e a possível destruição de empregos qualificados. A revista destaca o que chama de "falsos profetas da IA", referindo-se a bilionários do setor como Elon Musk, Sam Altman e Mark Zuckerberg, cujas promessas de um futuro radiante esconderiam uma vontade de dominação econômica e poder político. No centro do debate, a publicação traz a encíclica "Magnifica Humanitas" do Papa Leão XIV, que apela pelo "desarmamento da IA" para que ela não domine o ser humano, defendendo uma revolução antropológica que coloque a dignidade humana acima do lucro. Já a revista L'Express traz uma perspectiva fundamentada no debate econômico e filosófico sobre a mesma encíclica papal. Em entrevista, os economistas David Thesmar e Augustin Landier analisam o texto de Leão XIV, classificando-o como "tecnoansioso" por se concentrar excessivamente em riscos como a exclusão econômica e a desinformação. Embora Landier reconheça que a Igreja acertadamente identifica a IA como uma disrupção fundamental que remodela a sociedade, Thesmar diverge da ideia de desaceleração. Acelerar ou controlar? Para ele, a humanidade deve, na verdade, acelerar o progresso técnico para enfrentar desafios globais, argumentando que a estagnação organizada da IA não seria benéfica para o bem-estar humano. Finalmente, Le Point trata do impacto direto da tecnologia no mercado imobiliário, mostrando como a IA está otimizando a busca por imóveis. Através de assistentes inteligentes como o ZIA e o ARI, os interessados podem agora realizar buscas por critérios ultraprecisos, como "vista para a Torre Eiffel" ou "proximidade de boas escolas". Além de reduzir sensivelmente o tempo de pesquisa, a tecnologia permite visualizar o potencial de reformas através de home staging virtual e obter orçamentos detalhados de renovação em poucos segundos. Para os profissionais do setor, a IA atua na liberação de tarefas administrativas repetitivas, permitindo que os agentes imobiliários se dediquem mais ao acompanhamento humano e estratégico de seus clientes.
06/06/2026 • 02:03
O avanço estratégico ucraniano no conflito com a Rússia, com foco no uso decisivo de drones e tecnologias inovadoras no campo de batalha, é destaque nas revistas semanais francesas. A imprensa também revela os bastidores das sanções europeias contra Moscou, marcadas por um sistema complexo de aplicação. A revista Le Point enfatiza o desempenho do exército ucraniano que, segundo a publicação, “impressiona o mundo”. Em um conflito que se prolonga no tempo, os ucranianos estão fazendo mais do que simplesmente resistir, afirma a reportagem: a arma secreta de Kiev são drones e robôs ultramodernos, que fazem toda a diferença no campo de batalha. A chamada nova guerra, travada à distância, permitiu que os ucranianos resistissem aos invasores russos, superiores em exército e poder de fogo, analisa a revista. Em abril, pela primeira vez desde a contraofensiva ucraniana de 2023, a Rússia perdeu mais território do que ganhou na Ucrânia, segundo dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). Ao mesmo tempo, de acordo com um comunicado da Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, abril também registrou o maior número de mortes de civis desde maio de 2024: ao menos 209 pessoas morreram e 1.146 ficaram feridas. Os ataques russos têm se intensificado por via aérea, enquanto os avanços são mais limitados por terra. A revista destaca ainda o uso do P1-Sun, considerado o melhor interceptador de drones da Ucrânia. Essa tecnologia, desenvolvida pela start-up ucraniana SkyFall, permite que Kiev neutralize os drones Shahed utilizados por Moscou. Sanções A semanal L’Express, por sua vez, revela os bastidores da aplicação de sanções impostas pela Europa contra a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. As medidas de retaliação atingem cerca de 2.600 indivíduos e entidades considerados próximos ao Kremlin, e têm em primeira linha oligarcas e seus familiares. A elaboração da lista de sancionados segue um mecanismo complexo e opaco, segundo a revista. Todos os bens dessas pessoas e empresas em solo europeu são congelados. Eles não podem mais usufruir de suas propriedades, iates, nem movimentar ou sacar recursos de suas contas bancárias na Europa. As sanções, de caráter praticamente permanente, também incluem a proibição de viagens dentro da União Europeia. Um grupo de advogados instalados em Paris e Bruxelas tem tentado contestá-las nos tribunais, apontando lacunas e ambiguidades no sistema europeu. Pouco menos de 100 recursos foram apresentados até agora, com sucesso relativo. Segundo a revista, o processo é difícil não apenas porque as decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) se aplicam apenas ao pacote de sanções contestado – e a lista negra é renovada a cada seis meses –, mas também porque os critérios adotados são variáveis e devido à falta de transparência no processo de seleção dos alvos das sanções. Entretanto, graças a esses vácuos, Vladimir Lissin, o homem mais rico da Rússia e fornecedor de aço para a fabricação de armas no país, até hoje conseguiu escapar da lista, destaca L'Express.
30/05/2026 • 02:01
As revistas semanais francesas trazem duas leituras complementares sobre o papel da Europa no mundo e o lugar que ela ocupa hoje no equilíbrio global. De um lado, a revista L’Express dedica sua capa à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ela é descrita como a dirigente que “os europeus adoram detestar”. Já Le Nouvel Obs avalia que em negociações com a China e os Estados Unidos, os europeus ainda não imprimem a força necessária para defender seus interesses. Segundo o perfil traçado pela L'Express, Ursula von der Leyen assumiu a chefia da Comissão em um momento de crise global e optou por responder ampliando o alcance da instituição. Primeira mulher à frente do Executivo europeu, ela imprimiu ao seu mandato uma lógica geopolítica, colocando a União Europeia como ator estratégico em um mundo instável. Mas essa expansão de atuação não é consensual. Nos bastidores de Bruxelas, cresce a percepção de que a presidente vai além do que tradicionalmente caberia à Comissão, ocupando espaços políticos e diplomáticos de maneira mais assertiva; para alguns até excessiva. A reportagem insiste em um ponto central: o estilo de Ursula von der Leyen. Ela é frequentemente descrita como uma dirigente que centraliza decisões, personaliza a ação política e imprime uma marca pessoal forte ao cargo. Para seus críticos, trata-se de uma ruptura com o funcionamento mais colegiado que caracteriza a União Europeia. Isso alimenta acusações de que ela “ultrapassa os limites” de sua função, ainda que seus apoiadores vejam nisso uma adaptação necessária a um mundo mais turbulento. Leia tambémAcordo com Mercosul: UE não descarta entrada em vigor antes de voto do Parlamento Europeu Paradoxo A visibilidade e o protagonismo da dirigente alemã revelam um paradoxo: Ursula von der Leyen é ao mesmo tempo uma das líderes mais reconhecidas do continente e uma das mais contestadas. É nesse ponto que entra uma segunda análise, desta vez da revista Le Nouvel Obs. Em um editorial intitulado “A lição de Pequim aos europeus”, o texto afirma que a União Europeia deveria ser mais firme na defesa de seus interesses. A revista considera que a China soube resistir às pressões de Donald Trump durante a recente visita do presidente norte-americano a Pequim, enquanto muitas vezes, "a Europa se comporta como um vassalo dos Estados Unidos". Segundo a revista, em um mundo cada vez mais competitivo, a força, e não a conciliação, passou a definir o equilíbrio de poder. A crítica é direta: a Europa ainda hesita, ainda evita o confronto e paga um preço alto por isso. Nas duas publicações, a questão central permanece sem resposta: como a Europa pode se tornar uma potência mais assertiva, sem se dividir por dentro?
23/05/2026 • 02:18
As revistas francesas desta semana destacam a carreira e a obra do diretor Pedro Almodóvar. Aos 76 anos e com um novo filme estreando no Festival de Cannes, o cineasta espanhol nunca conquistou a Palma de Ouro, o principal prêmio da mostra cinematográfica francesa, apesar de ter um estilo marcante e uma carreira reconhecida mundialmente. Estampando a capa da revista M, do jornal Le Monde, Pedro Almodóvar é chamado pela publicação de “O rei da Espanha”. E não é para menos: são 24 longas-metragens, cerca de 12 curtas, além de filmes de outros diretores produzidos por meio da produtora El Deseo, que dirige ao lado do irmão, Agustín. O cineasta espanhol também tem um estilo inconfundível, a revista, reconhecido internacionalmente. A publicação destaca ainda que, apesar de todo esse reconhecimento e de ter concorrido sete vezes em Cannes, Almodóvar nunca foi premiado. Este ano, ele tem uma nova oportunidade de ganhar a Palma de Ouro com o filme autobiográfico "Amarga Navidad" (Natal amargo, em tradução livre). Para a revista Le Nouvel L’Obs, o longa é um “autorretrato cru” do cineasta, um eco sutil de “Dor e glória”, também autobiográfico, lançado em 2019, com Antonio Banderas no papel principal. “Amarga Navidad” conta a história de um cineasta em meio a uma crise criativa, interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, que busca inspiração para seu próximo filme quando uma tragédia atinge um de seus colaboradores mais próximos. Gradualmente, ele imagina Elsa, uma diretora em processo de escrita, cuja trajetória começa a espelhar a sua. Os dois cineastas tornam-se duas faces da mesma moeda, como em um labirinto de espelhos. “Muitos dizem que tudo o que não é autobiográfico é mentira. Concordo plenamente com isso, na medida em que constato que a minha vida, em níveis variados, sempre foi uma fonte de inspiração”, afirmou Almodóvar à Le Nouvel L’Obs. “Fazer cinema é a razão da minha existência. O que vivo fora dele é um pretexto para usar nos meus filmes”, acrescentou. Do passado na telefonia ao sucesso mundial Antes de se tornar conhecido pelos cenários vibrantes e pelas histórias passionais, o jovem Pedro Almodóvar - então cineasta underground, roqueiro e festeiro inveterado, além de nunca ter escondido sua homossexualidade - trabalhou por 12 anos na companhia telefônica nacional da Espanha. Considerado também um símbolo do despertar espanhol dos anos 1970, quando o país começava a se libertar da ditadura de Francisco Franco, ele só pôde se dedicar integralmente ao cinema após o sucesso de seu primeiro longa-metragem “oficial”, “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão”, lançado em 1980. Sobre seu trabalho mais recente, “Amarga Navidad”, Almodóvar contou à Le Nouvel L’Obs que busca inspiração não apenas na própria vida, mas também em autores clássicos. Para ele, a França é um país com grandes “voyeurs da autoficção”, citando escritores como Annie Ernaux e Emmanuel Carrère.
16/05/2026 • 02:01
As revistas francesas desta semana abordam dois eixos centrais: a corrida global dos robôs humanoides e a reorganização geopolítica e econômica que ela provoca; e o impacto da inteligência artificial nas decisões íntimas, como a escolha de profissões dos filhos. Em ambos os casos, a revista Le Point e o suplemento M, do jornal Le Monde, mostram um mesmo cenário: aceleração tecnológica que transforma o trabalho e desestabiliza referências sociais, econômicas e familiares, sem respostas claras sobre o futuro. Le Point descreve esse movimento como uma transformação estrutural já em curso, comparável a uma nova revolução industrial. O avanço dos robôs humanoides deixa de ser promessa distante e passa a integrar operações concretas, como no aeroporto de Haneda, em Tóquio, onde máquinas da empresa chinesa Unitree já auxiliam no transporte de bagagens. O cenário japonês ilustra uma inversão simbólica: um país historicamente associado à vanguarda da robótica industrial agora recorre a tecnologias desenvolvidas na China para enfrentar a escassez de mão de obra provocada pelo envelhecimento populacional. O cálculo econômico é direto, com robôs custando menos que alguns meses de trabalho humano. A China aparece como o principal laboratório dessa nova corrida. Empresas e polos industriais em cidades como Shenzhen e Xangai formam um ecossistema de desenvolvimento acelerado, onde robôs são treinados em ambientes controlados para reproduzir gestos humanos em escala crescente. Nos Estados Unidos, o tema assume dimensão política e performática. Le Point destaca a aparição de um robô humanoide ao lado da primeira-dama em um evento na Casa Branca, gesto interpretado como demonstração de liderança tecnológica diante da competição global com a China. Leia tambémInteligência artificial já reduz emprego de jovens e ameaça a formação dos profissionais do futuro Inteligência artificial e a crise silenciosa da orientação dos filhos Na outra ponta desse debate, a revista semanal M, do jornal Le Monde, observa como a inteligência artificial está desorganizando algo ainda mais sensível: as estratégias familiares de educação e orientação profissional na França. A cronista Guillemette Faure parte de uma provocação simples – a desconfiança em embarcar em um avião pilotado por IA – para discutir a perda de referências nas escolhas de vida. O texto mostra que antigos roteiros de sucesso – como investir cedo em programação, dominar idiomas estratégicos ou buscar carreiras em grandes corporações – começam a ser colocados em dúvida por pais que já não sabem quais profissões sobreviverão à automação. Leia tambémDisputa na Justiça entre Musk e Altman expõe a luta pelo controle da IA Em relatos reunidos pela publicação, profissionais de áreas tradicionais como direito, medicina ou tecnologia expressam insegurança sobre o futuro de suas próprias carreiras e, em alguns casos, desaconselham que os filhos sigam os mesmos caminhos. Diante desse cenário, surgem estratégias de adaptação quase intuitivas: valorização de atividades manuais, artesanais ou criativas, vistas como menos vulneráveis à substituição tecnológica. Ao mesmo tempo, discursos de executivos do setor de tecnologia oferecem respostas vagas – como “aprender a aprender” ou “estar em beta permanente” – que pouco ajudam na tomada de decisões concretas.
09/05/2026 • 02:07
Quase três anos após o ataque de 7 de outubro em Israel, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu teria conduzido o país a uma espiral de guerra e endurecimento autoritário. Essa é a avaliação da revista Nouvelle L’Obs, que traz nesta semana na capa o título “A Deriva de Israel”. O tema também ganha amplo destaque na Le Point, que dedica várias páginas à situação no Líbano. Segundo a L’Obs, depois da guerra na Faixa de Gaza — que deixou 72 mil mortos, entre eles 30 mil crianças — Israel abriu seis novas frentes de combate: Líbano, Irã, Cisjordânia, Iêmen, Iraque e Síria. Nem as condenações internacionais nem as investigações internas por corrupção foram capazes de conter os planos de Netanyahu, no poder desde 2009. Um sinal do endurecimento da estratégia foi a aprovação, em março, no Parlamento israelense, da pena de morte para palestinos acusados de terrorismo. “Estamos convencidos de que somos os bons e eles [os palestinos], os maus”, diz um estudante de Tel Aviv, em declaração que ecoa o discurso oficial. Ao mesmo tempo, jornalistas que poderiam denunciar os massacres praticados no conflito passam a se autocensurar por medo de marginalização, enquanto a oposição de esquerda perde espaço no país. Especialistas ouvidos pela Nouvelle L’Obs descrevem uma “democracia em erosão”, cujos ideais foram manchados pela destruição de Gaza, pela colonização da Cisjordânia e por crimes de guerra. Segundo eles, essa política agressiva “contribuiu para colocar em perigo os judeus do mundo inteiro”. Pela primeira vez, ressalta o texto, cidadãos americanos demonstram mais solidariedade aos palestinos do que aos israelenses. Além disso, diversos analistas passam a usar o termo genocídio para descrever a ofensiva. Conflito no sul do Líbano Já a revista Le Point analisa a guerra entre Israel e o Hezbollah, a milícia armada libanesa alinhada ao Irã. O conflito já deixou cerca de 2.500 mortos no Líbano. Sob a justificativa de eliminar a ameaça terrorista, Israel abre caminho para a criação de uma zona de segurança ao longo da fronteira, com destruição de casas e retirada forçada de moradores — o que as autoridades libanesas classificam como uma ocupação. A abertura de conversas diretas entre as diplomacias israelense e libanesa representa uma novidade histórica. Enquanto Tel Aviv afirma mirar a erradicação do Hezbollah, Beirute aposta na consolidação do cessar‑fogo. Em meio às ofensivas israelenses, o Hezbollah rejeita ser desarmado à força — medida que, segundo um deputado eleito pelo grupo, poderia desencadear uma guerra civil no país.
02/05/2026 • 02:21
Donald Trump é louco? A pergunta na manchete de capa da revista francesa L’Express desta semana ecoa a dúvida de muita gente em todo o mundo diante do comportamento imprevisível do presidente dos Estados Unidos. A publicação, que chegou às bancas na quinta-feira (23), traz uma série de reportagens investigativas com o objetivo de confirmar ou desmentir essa suspeita. Após várias declarações chocantes, sobretudo depois do início da guerra contra o Irã, a L’Express lembra que o auge das provocações do republicano foi atingido quando ele ameaçou destruir a civilização iraniana. Uma semana depois, mudou de alvo e provocou um escândalo ao criticar o papa Leão XIV, a quem chamou de fraco. Diante das reações negativas, apagou publicações e mudou de narrativa sem demonstrar qualquer constrangimento. Desde o início do mês de abril, parece que algo está fora da ordem no comando dos Estados Unidos, que vêm acumulando reveses, sintetiza a reportagem. Muitos críticos e opositores apontam uma suposta loucura ou o início de uma demência do presidente, que completará em breve 80 anos. A tal ponto que no Congresso americano, representantes democratas, com o apoio de alguns republicanos insatisfeitos, anunciam que pretendem recorrer à 25ª Emenda da Constituição, que prevê a substituição do presidente em caso de incapacidade para governar. Trata-se de uma iniciativa com consequências potencialmente muito mais graves. Discutir a saúde mental de Trump "pode ser uma faca política de dois gumes". A medida exige maioria absoluta no Congresso, algo que os democratas não possuem, e a tese da loucura pode acabar desacreditando o país no cenário internacional. Jeffrey Sonnenfeld, especialista ouvido pela revista, afirma que "a impressão de caos produzida por Donald Trump é uma estratégia deliberada do presidente, que divide para governar melhor e transgride voluntariamente as normas, obtendo às vezes bons resultados". Louco, psicopata ou habilidoso? A suposta loucura de Trump também interessa a outros meios de comunicação franceses. Em entrevista à rádio pública France Inter, o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik afirma que o republicano não é um "louco irresponsáve"l, mas "um psicopata que tem o dinheiro como único valor da condição humana". Psicopata, louco ou habilidoso, o fato é que a guerra no Irã veio atrapalhar até mesmo as melhores estratégias de comunicação do presidente americano, "que perdeu a mão", escreve a Nouvel Obs em editorial. Diante de tantas críticas e da queda em sua popularidade, "Trump vive o início do fim de seu poder?" questiona a L’Express. Alguns analistas afirmam que a guerra contra o Irã seria o Vietnã do republicano. Mas estamos realmente assistindo ao seu crepúsculo? "O 47º presidente dos Estados Unidos ainda tem várias cartas na manga e já demonstrou diversas vezes sua habilidade em transformar críticas em armas políticas". Mesmo que os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato em novembro, Trump permanecerá no poder até 20 de janeiro de 2029, conclui a L'Express.
25/04/2026 • 02:09
A guerra no Oriente Médio tem abalado o apoio aos Estados Unidos no mundo árabe. O tema é destaque nas revistas semanais francesas, que apontam uma mudança de preferência dessas populações em direção aos grandes rivais de Washington: China, Irã e Rússia. A revista L’Express publica os resultados de pesquisas realizadas pelo Barômetro Árabe, que estuda a opinião pública no mundo árabe desde 2006. Essa mudança começou a se intensificar após a guerra devastadora conduzida por Israel, com apoio dos Estados Unidos, na Faixa de Gaza, e se prolonga até hoje. Segundo o levantamento, os habitantes do Oriente Médio “perderam quase toda a confiança na ordem regional dirigida por Washington”. Embora muitos países do Golfo Pérsico continuem a considerar o programa nuclear iraniano uma ameaça, a guerra iniciada por Israel e pelos EUA contra Teerã intensifica o sentimento antiamericano na região. Nesse contexto, colaborar abertamente com Washington pode se transformar em fonte de protestos, algo que os dirigentes autoritários do mundo árabe detestam. Ainda segundo a reportagem, com os ataques ao Irã, os Estados Unidos passam a perder a imagem de defensores dos direitos humanos. A revista Le Point dedica uma reportagem ao sultanato de Omã, que já foi considerado a Suíça do Oriente Médio por seu papel histórico de mediador em conflitos. Foi em Mascate, por exemplo, que o enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e o genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reuniram indiretamente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em abril de 2025. O apoio americano à guerra lançada por Israel, em junho de 2025, alterou profundamente o cenário diplomático. “Omã se sentiu insultado por Trump”, afirma Abdullah Baabood, professor de relações internacionais da Universidade Waseda, em Tóquio, ouvido pela revista. Já a Le Nouvel Obs, que chega às bancas, analisa as tentativas de acordo entre os Estados Unidos e Teerã, com mediação do Paquistão. Segundo a revista, Donald Trump teria sido convencido pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a tentar derrubar um governo que estaria “enfraquecido após a primeira guerra de doze dias”, em junho de 2025. Apesar das reservas do secretário de Estado Marco Rubio, Trump apostou que o regime iraniano, no poder desde 1979, cairia facilmente após bombardeios. Quarenta dias depois, a realidade sugere que o presidente pode ter se equivocado ao envolver os Estados Unidos em um conflito sem precedentes desde a invasão do Iraque, em 2003. O Irã, por sua vez, pode sair fortalecido ao ampliar a instabilidade regional e ao bloquear o Estreito de Ormuz, o que tem impacto na economia internacional, levando as monarquias do Golfo a pressionar Washington. O resultado é uma erosão acelerada do prestígio americano no mundo árabe, em um momento de profundas recomposições geopolíticas no Oriente Médio.
18/04/2026 • 02:10
Às vésperas das eleições legislativas na Hungria, marcadas para este domingo (12), o primeiro‑ministro Viktor Orbán tenta se manter no poder com o apoio de Moscou, Pequim e Washington. Nem os alertas da maioria dos 26 Estados-membros da União Europeia (UE), nem as consequências da guerra na vizinha Ucrânia parecem abalar a determinação do líder conservador, que está há 16 anos no comando do país. O tema é destaque das principais revistas semanais francesas. A Le Point destaca que, embora a UE invista bilhões de euros na Hungria desde 2004 para a construção de rodovias, metrôs e pontes, é junto à Rússia — em guerra aberta contra os europeus — que Viktor Orbán adquire 80% do petróleo e do gás indispensáveis ao país. Pior do que isso, cartazes de campanha espalhados em diversas cidades desgastam a imagem da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, retratados como “perigosos”. Para a oposição, no entanto, a dependência energética “não deve justificar essa aliança com o Kremlin”, já que haveria alternativas viáveis. O texto sugere ainda que o líder húngaro se beneficia de uma relação opaca com o presidente russo, Vladimir Putin. Segundo a revista Le Nouvel Obs, as pesquisas eleitorais indicam o partido nacional‑populista de Orbán, o Fidesz, atrás da oposição liderada por Péter Magyar, diplomata que denunciou a corrupção dentro da legenda governista. O líder do partido Tisza alerta para a ingerência de equipes de inteligência russa em campanhas de desinformação no país. Aproximação de líderes ultraconservadores O jornal Washington Post chegou a divulgar a existência de um plano envolvendo uma tentativa de assassinato de Orbán para impulsionar sua popularidade. A aproximação com o presidente americano, Donald Trump, e outros líderes conservadores, como o argentino Javier Milei, também integra a estratégia de campanha. O vice‑presidente dos Estados Unidos, JD Vance visitou a Hungria na semana que antecedeu a votação para apoiar o atual primeiro‑ministro. Já a revista L’Express analisa a transformação do Mathias Corvinus Collegium (MCC), instituição educacional fundada em 1996 para apoiar estudantes de baixa renda, em uma “máquina de propaganda” do governo ultraconservador de Viktor Orbán. Privatizado em 2021, o instituto recebeu forte apoio financeiro da companhia petrolífera MOL, cuja receita depende do petróleo russo. Desde então, o MCC se expandiu e passou a atuar em 31 localidades, incluindo Romênia, Eslováquia e Ucrânia. A revista aponta ainda que instituições ligadas a Orbán contam com apoio explícito de Washington. Nas palavras do secretário de Estado americano Marco Rubio, “a vitória de Orbán é a nossa vitória”.
11/04/2026 • 01:59
As revistas francesas Le Point e L’Express traçam, nesta semana, um retrato inquietante da presidência de Donald Trump. Enquanto Le Point descreve um chefe de Estado que transforma o cargo em plataforma de enriquecimento pessoal e influência econômica, L’Express mostra um líder disposto a assumir riscos militares elevados para controlar 440 kg de urânio enriquecido no Irã. Entre negócios e geopolítica, emerge a figura de um presidente que mistura poder e dinheiro de forma inédita no mundo. Segundo reportagem da revista francesa Le Point, publicada nesta semana, o retorno de Donald Trump à Casa Branca teria consolidado uma forma inédita de fusão entre poder político e enriquecimento pessoal. A revista descreve o presidente norte-americano como alguém que transformou o exercício do cargo em uma plataforma de rentabilização contínua, seja por meio de eventos privados, ativos imobiliários, criptomoedas ou relações políticas convertidas em vantagem econômica. Ainda de acordo com Le Point, o fenômeno não seria marginal, mas estrutural. A publicação menciona estimativas do New Yorker segundo as quais Trump teria acumulado mais de US$ 4 bilhões durante seus mandatos, algo que o periódico classifica como “sem precedentes” na história presidencial americana. A revista sustenta que a fronteira entre diplomacia e negócios privados teria se tornado difusa, a ponto de acadêmicos citados no texto falarem em um sistema em que a política externa estaria subordinada a interesses pessoais e de aliados próximos. Leia tambémImprevisibilidade de Trump gera mais incerteza e piora crise no Oriente Médio Nesse contexto, Le Point sugere uma mutação institucional mais profunda: os Estados Unidos, historicamente descritos como uma "plutocracia eleitoral", estariam deslizando para uma forma híbrida de "cleptocracia política", em que decisões de Estado passam a gerar retornos econômicos diretos para o entorno do presidente. A revista enfatiza que "críticos internos do meio financeiro norte-americano já passaram a questionar publicamente possíveis conflitos de interesse da atual administração". Mar-a-Lago, criptomoedas e a economia privada do poder Ainda segundo Le Point, esse modelo de poder se materializa de forma concreta em espaços como Mar-a-Lago, na Flórida, apresentado pela revista como um símbolo físico da fusão entre residência presidencial e "clube privado de negócios". A reportagem descreve o aumento expressivo das taxas de adesão ao clube e a transformação do local em um "centro de influência política e econômica". A publicação destaca também o papel de iniciativas ligadas a criptomoedas associadas ao entorno de Trump, apontando, com base em analistas citados, que determinadas operações financeiras "teriam gerado retornos superiores a US$ 1 bilhão". O conjunto dessas atividades é interpretado pela revista como parte de uma economia paralela do poder, em que o acesso ao presidente e à sua rede se converte em ativo financeiro. Para Le Point, até mesmo eventos diplomáticos podem ser reinterpretados sob essa lógica. A revista menciona a intenção de realizar encontros internacionais em propriedades privadas do presidente, o que, segundo diplomatas citados, reforçaria a confusão entre interesse público e benefício privado. Leia tambémIrã promete ataques ‘esmagadores’ após discurso de Trump que sinaliza continuidade da ofensiva "Troféu estratégico" Já a revista francesa L’Express publica nesta semana uma análise centrada na guerra no Oriente Médio, na qual Donald Trump aparece como ator decisivo em uma disputa de alto risco envolvendo o programa nuclear iraniano. Segundo o veículo, um dos objetivos estratégicos centrais da atual escalada militar seria "o controle de cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60% no Irã". O material poderia, em tese, ser rapidamente convertido em combustível para múltiplas armas nucleares. De acordo com L’Express, esse estoque teria se tornado um “troféu estratégico” cuja localização e neutralização poderiam definir o desfecho político e militar do conflito. A revista afirma que parte desse material estaria dispersa em instalações subterrâneas altamente protegidas, incluindo Natanz, Fordo e possíveis depósitos em Isfahan, segundo dados atribuídos à Agência Internacional de Energia Atômica. A publicação ressalta ainda que, apesar dos bombardeios e operações militares recentes, especialistas consideram que o "urânio enriquecido não foi totalmente destruído", o que mantém o risco estratégico elevado. Nesse cenário, a administração norte-americana consideraria operações extremamente complexas, incluindo ações de forças especiais no terreno — hipótese descrita como politicamente sensível e militarmente arriscada. A fronteira entre operação militar e desastre estratégico Ainda segundo L’Express, qualquer tentativa de recuperar fisicamente esse material exigiria uma operação de altíssima complexidade logística, envolvendo desde forças especiais até equipamentos pesados de escavação e contenção nuclear. Especialistas citados pela revista descrevem um cenário em que seria necessário operar sob risco simultâneo de ataques, explosivos, drones e resistência militar iraniana. A revista também lembra o precedente histórico da operação fracassada “Eagle Claw”, em 1980, durante a crise dos reféns no Irã, para ilustrar os riscos de intervenções desse tipo. O paralelo sugere que o trauma militar norte-americano na região ainda influencia o planejamento estratégico atual. Para L’Express, o risco não se limita ao campo militar imediato. A revista alerta para a possibilidade de proliferação nuclear caso o material seja deslocado ou parcialmente perdido em meio ao colapso de estruturas estatais, o que poderia envolver atores não estatais e grupos extremistas na região.
04/04/2026 • 01:54
A crise global de março de 2026 desenha um cenário de profunda incerteza, no qual geopolítica e economia se fundem sob o impacto de um novo choque petrolífero, como constata a imprensa semanal francesa. O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro, desencadeou o estrangulamento do Estreito de Ormuz, um ponto nevrálgico por onde transita uma parcela significativa do petróleo mundial Com o barril de Brent atingindo US$120, o mundo enfrenta o espectro da estagflação — combinação de crescimento estagnado e inflação persistente —, que ameaça especialmente a estabilidade da União Europeia e as estratégias de transição energética. A revista L’Express destaca como esta crise se tornou um inesperado “balão de oxigênio” para Vladimir Putin. Segundo a publicação, a alta dos preços da energia compensa as sanções internacionais e financia diretamente a máquina de guerra russa na Ucrânia, que se aproxima dos 1.500 dias de conflito. Além disso, a revista analisa o “mea culpa” europeu em relação a décadas de políticas equivocadas: a dependência excessiva do gás russo e o abandono precoce da energia nuclear deixaram o continente vulnerável e à mercê da volatilidade dos combustíveis fósseis, forçando governos a adotar medidas emergenciais e impopulares para conter os preços dos combustíveis. A engrenagem econômica iraniana Na revista Le Nouvel Obs, a análise da crise transcende a política para expor as entranhas do poder econômico e o fim do modelo de renda petrolífera no Irã. A revista destaca que o novo interlocutor diplomático de Washington, Mohammad Baqer Qalibaf, não é apenas um líder político, mas uma figura central da Khatam al-Anbiya, o gigantesco braço industrial e financeiro dos Guardiões da Revolução que controla mais de 800 empresas e detém o monopólio de contratos vitais para a infraestrutura do país. Negociar com Qalibaf é, segundo a publicação, uma "traição" ao povo iraniano, pois legitima quem detém as chaves da maquinaria econômica e energética da nação. Por fim, o Le Point traça paralelos sombrios com os choques petrolíferos de 1973 e 1979, alertando que a França e a Europa correm o risco de repetir os mesmos erros econômicos ao responder a uma crise de oferta com políticas de subsídio à demanda. A revista também revela o complexo “jogo duplo” do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Enquanto a Turquia, como membro da Otan, protege infraestruturas vitais como o terminal de Ceyhan — por onde flui o petróleo do Azerbaijão para a Europa e Israel —, Erdogan evita apoiar uma mudança de regime no Irã, temendo que um vácuo de poder resulte em crises migratórias massivas e no fortalecimento de movimentos curdos separatistas.
28/03/2026 • 02:07
Arrastado para a guerra após ataques do Hezbollah e a dura resposta de Israel, o Líbano enfrenta uma escalada devastadora: bombardeios se intensificam, milhares fogem e o frágil equilíbrio político do país ameaça ruir, enquanto estratégias usadas em Gaza se repetem no território libanês. As revistas francesas desta semana trazem reportagens sobre a situação no Líbano em meio ao conflito no Oriente Médio. O país foi arrastado para a guerra após os ataques do Hezbollah, em 2 de março, contra Israel, que retaliou. Em duas semanas, a campanha israelense deixou mais de 800 mortos e cerca de um milhão de deslocados. Para a L’Express, o Líbano é refém do Hezbollah e vê seu já frágil equilíbrio implodir. Israel ameaçou transformar Beirute em uma nova Faixa de Gaza, exigindo que a população colabore com os serviços israelenses contra o grupo. Segundo a reportagem, a vida na capital libanesa é marcada pelos bombardeios israelenses e pelo trânsito incessante de drones no céu, inclusive sobre o palácio presidencial. A comunidade xiita representa um terço da população do país e o Hezbollah é, ao mesmo tempo, o principal partido político deste ramo do Islã, um movimento social que administra escolas e hospitais e uma poderosa milícia armada e financiada por Teerã. Desarmá-lo poderia desencadear uma guerra civil, afirma um diplomata libanês entrevistado pela revista. Personalidades políticas libanesas ouvidas pela L’Express afirmam que toda a população do país é refém da guerra e do grupo armado, e que é necessário negociar e contar com um Exército forte — algo que o país não possui. Para elas, os ataques israelenses reforçam o apoio popular ao Hezbollah e colocam em risco a unidade do Líbano, com a emergência de violências entre comunidades. Estratégia usada em Gaza A Nouvel Obs traz entrevistas com refugiados de cidades cristãs do sul do Líbano que fugiram dos bombardeios israelenses. Eles relatam ter recebido alertas em seus telefones, enviados pelo Exército israelense, para que deixassem suas casas. A revista descreve estratégias israelenses para hackear celulares e recrutar informantes — táticas de pressão psicológica que remetem às usadas por Israel em Gaza. Assim como em Gaza, quatro hospitais foram atingidos e danificados, cinco tiveram de fechar e 49 centros de cuidados primários deixaram de funcionar em 10 de março. O médico britânico-palestino Ghassan Abu-Sittah, que trabalha em Beirute, afirma à revista que a destruição do sistema de saúde costuma ser uma etapa preparatória para esvaziar um território e sua população. Nos últimos dias, os ataques se multiplicaram em todo o país, enquanto unidades blindadas avançam pelas cidades do sul. Em Jerusalém, autoridades militares falam abertamente sobre a preparação de uma operação terrestre destinada a eliminar o Hezbollah e ocupar o sul do Líbano. Na guerra de 2024, algumas cidades cristãs foram poupadas, e muitos acreditavam que poderiam ficar afastados do conflito desta vez. Mas os cristãos do sul acusam o Hezbollah de ter arrastado toda a região para uma guerra que não é deles. Outros denunciam a ausência do Estado e de seu Exército, incapaz de protegê-los.
21/03/2026 • 02:09
A operação militar conjunta de Israel e Estados Unidos contra o Irã evidenciou, como nunca antes, o potencial e os riscos do uso da inteligência artificial na guerra. As informações e imagens recolhidos ao longo de anos pelos serviços secretos israelenses e americanos alimentaram as bases de dados das IAs contratadas por Washington e Tel Aviv, que orientaram os alvos de bombardeios em Teerã. O assassinato do líder supremo Ali Khamenei foi resultado desta “automatização da guerra”, indica a revista francesa Le Nouvel Obs desta semana. O uso da IA já era disseminado nos conflitos na Ucrânia e em Gaza, assim como foi decisivo para a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Desta vez, entretanto, a operação conjunta entre a CIA americana e o Mossad israelense marcou “uma virada na história militar”, afirma também a semanal L’Express. “As duas agências de inteligência usaram a alta tecnologia como nenhuma outra antes”, aponta a revista, salientando que os países ainda se beneficiam de um vácuo jurídico na legislação internacional sobre o uso militar da inteligência artificial. As IAs analisam volumes massivos de dados sensíveis, ajudando os serviços de inteligência humana a conectar essas informações e definir suas futuras ações. No caso dos ataques a Teerã, a inteligência artificial Claude, desenvolvida pela Anthropic, identificou alvos e deslocamentos recorrentes das lideranças do regime ao longo de anos. 'Margem de erro alta' O problema é que “a margem de erro é alta e o discernimento humano na tomada de decisões não para de se reduzir”, adverte a diretora do Centro de Políticas de Tecnologias do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), Laure de Roucy-Rochegonde, em entrevista à Nouvel Obs. A pesquisadora chama a atenção para o risco de “maior tolerância aos danos colaterais”. “A decisão é sempre tomada por um humano, mas ele se baseia no direcionamento estabelecido por uma máquina, que usa informações que ele não tem – o que significa dizer que a decisão é tomada às cegas”, explicou a especialista. A revista Le Point destaca que a tecnologia também é amplamente utilizada para a defesa. Alvos das retaliações iranianas, os países do Golfo têm conseguido evitar a maioria dos ataques disparados por Teerã – graças, em grande parte, aos benefícios da inteligência artificial. Com “orçamento ilimitado e salários exorbitantes”, os Emirados Árabes Unidos têm atraído alguns dos melhores especialistas da área, sublinha reportagem da Le Point. Em Abu Dhabi, o país inaugurou há cinco anos a primeira universidade do mundo especializada em IA. “A inteligência artificial não é apenas um vetor de crescimento econômico dos emiradenses: é também o escudo da nação”, aponta a revista francesa.
13/03/2026 • 02:03
As revistas francesas desta semana abordam diversos aspectos da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e suas possíveis consequências para o mundo. As edições especiais investigam os verdadeiros objetivos por trás do conflito que chacoalha a geopolítica. "Como Netanyahu e Trump incendeiam o Oriente Médio", é a manchete da revista Nouvel Obs. A semanal afirma que, apesar das dúvidas em seu próprio campo, o presidente americano se engajou no conflito "sem embasamento legal e motivo claro", movido por suas convicções políticas e seus cálculos pessoais. Para a Nouvel Obs, o atual conflito é uma aposta "irresponsável, arrogante e imperial" de Trump e Netanyahu. "O objetivo é fazer cair a teocracia xiita? Ou seria esse um cenário como o da Venezuela?", pergunta. A diferença, segundo a revista, é que depois dos ataques de junho contra o Irã, Trump acreditava na possibilidade de negociação. A matéria revela que foi apenas depois da visita de Netanyahu aos Estados Unidos, em dezembro, que o presidente americano foi convencido a iniciar o planejamento da operação lançada em 28 de fevereiro. Por isso, para a Nouvel Obs, não há dúvidas de que a guerra teve início por pressão de Israel. Netanyahu teria percebido nas manifestações iranianas, entre o final de 2025 e o início de 2026, uma janela para aniquilar o inimigo em um momento de fragilidade. Virada no Oriente Médio com morte de Khamenei A revista L'Express afirma que os Estados Unidos e Israel "embaralham as cartas" da geopolítica e questiona até onde eles estão dispostos a ir. De acordo com a matéria, uma semana após o início da guerra, ninguém se arrisca a prever os próximos capítulos do conflito. Mas uma coisa é certa, diz a L'Express: a morte do líder supremo Ali Khamenei - "que transformou o Irã em uma teocracia ultramilitarizada" – marca uma virada no Oriente Médio e no islamismo mundial. Leia tambémOriente Médio vive momento de ruptura comparável ao da queda do Muro de Berlim, diz pesquisador Entrevistados pelo diário, especialistas apontam que há dois cenários possíveis para o futuro do Irã. O primeiro seria a manutenção do regime e uma nova onda de repressão caso a população atenda ao chamado de insurreição de Trump. A segunda possibilidade é a tomada do controle do Estado pelos militares, em que o poder total estaria nas mãos da temida Guarda Revolucionária. A revista Le Point estampa sua capa com uma foto de Khamenei e recapitula o meio século de crimes contra o Irã e o mundo cometidos sob sua mão de ferro. A edição especial retraça sua chegada ao poder, em 1989, quando decidiu dar sequência ao regime sanguinário do aitolá Khomeini, reforçando seus próprios poderes, reorientando o país em direção ao nuclear e reprimindo qualquer desejo de transformação, na esfera política ou social. Ouvido pela Le Point, Mehdi Khalaji, especialista no islã xiita, prevê um novo modelo de liderança no Irã. Segundo ele, o próximo guia supremo terá um papel simbólico, com o principal objetivo de manter a legitimidade do regime. Leia também'A situação não está fora de controle': analista vê risco calculado na escalada do Oriente Médio
07/03/2026 • 02:05
A quinze dias do primeiro turno das eleições municipais na França, que devem redesenhar as relações de força políticas, as revistas semanais já estão preocupadas com outra votação importante no país. A Nouvel Obs e a Le Point antecipam um provável duelo entre Jean-Luc Mélenchon, da ultraesquerda, e Jordan Bardella, da extrema direita, na eleição presidencial de 2027. Na manchete de capa, ilustrada com uma foto do líder do partido A França Insubmissa (LFI), a Nouvel Obs afirma que “Mélenchon está em um impasse”. A revista entrevistou o político pouco antes da morte do jovem de extrema direita Quentin Deranque, em Lyon, durante uma briga com militantes antifascistas. O texto destaca que Mélenchon é alvo de uma avalanche de críticas. Para a publicação, o líder da LFI “acaba com as chances da esquerda” e “beneficia a extrema direita” devido à sua estratégia de confronto permanente, à sua relação com a violência política e à sua responsabilidade na fragmentação da esquerda. O politólogo Philippe Marlière, ouvido pela Nouvel Obs, avalia que essa “estratégia minoritária de Mélenchon o levará ao fracasso”. Segundo ele, a LFI pode até chegar ao segundo turno da eleição presidencial, mas não teria condições de vencer. "Inimigos perfeitos" A Le Point afirma, em editorial, que Mélenchon e Bardella são “inimigos perfeitos”. Sob a aparência de antagonismo, o partido Reunião Nacional (RN), de extrema direita, e a França Insubmissa, na prática, trabalham lado a lado. As duas legendas compartilhariam o mesmo objetivo: se enfrentarem diretamente em 2027. “O melhor aliado do RN é a LFI”, aponta o texto. No entanto, Bardella — provável candidato da extrema direita no lugar de Marine Le Pen, condenada pela Justiça — ainda não garantiu a vitória. O RN segue com sua estratégia de “desdiabolização”, moderando discurso e programa. Bardella, por sua vez, iniciou uma suposta conversão ao pragmatismo econômico destinada a seduzir a direita tradicional. Mas, para a Le Point, essa estratégia “continua sendo uma farsa”. Ainda assim, a revista avalia que Bardella só encontraria dificuldades para vencer o segundo turno caso seu adversário não fosse Mélenchon. Uma pesquisa encomendada pela revista mostra que 41% dos entrevistados não desejam a vitória de nenhum dos dois candidatos. Nesse cenário, “uma parte importante da sociedade não estaria representada”, analisa o especialista Jean‑Yves Dormagen, que alerta para um possível “problema de legitimidade política e democrática” no país.
28/02/2026 • 02:03
O aumento da violência política e a formação de movimentos de esquerda radical na Europa se intensificaram após a morte de um jovem militante ultranacionalista em Lyon, no centro-leste da França. As tensões políticas têm levado governos a adotar novas medidas de segurança, destacam as revistas semanais francesas desta semana. Quentin Deranque, católico integrista e ultranacionalista de 23 anos, morreu no último sábado (14) após um confronto com um grupo rival. Os suspeitos — oito homens e três mulheres — estão sendo investigados por homicídio doloso, violência agravada e associação criminosa. Eles pertencem ou são próximos do movimento antifascista La Jeune Garde, fundado pelo deputado do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), Raphaël Arnault. A revista francesa Nouvel Obs traz uma entrevista com o jornalista e escritor Sébastien Bourdon, autor do livro Une vie de lutte plutôt qu’une minute de silence. Enquête sur les antifas (Uma vida de luta, em vez de um minuto de silêncio. Investigação sobre os antifascistas, em tradução livre). O autor explica que o La Jeune Garde surgiu em 2018 em Lyon, cidade onde a extrema direita radical se implantou e ganhou força nos últimos vinte anos. Segundo ele, embora tenha nascido como reação ao ultranacionalismo, essa corrente antifascista tende a não limitar seu combate à extrema direita, atuando também contra a violência policial, em defesa de pessoas exiladas e contra a islamofobia. Para Bourdon, a recente dissolução de movimentos de extrema direita na França levou seus membros a se unirem para realizar ações violentas, muitas delas em confrontos diretos com antifascistas. Ainda segundo ele, o recurso à violência é raro no movimento, que se diferencia do militante “clássico” justamente por “assumir a possibilidade de recorrer à violência”. Segundo o jornalista, grande parte do trabalho se concentra em manifestações e na distribuição de panfletos. No caso da extrema direita, a violência também aparece em agressões racistas e homofóbicas, além de ameaças de atentados terroristas. Aumento de tensões políticas na Itália A revista L’Express destaca que Roma também enfrenta uma onda de violência política, que levou o governo de Giorgia Meloni a adotar medidas inéditas. Após uma grande manifestação em Turim contra o fechamento de um centro ligado ao movimento anarquista, em 31 de janeiro, confrontos violentos deixaram dezenas de policiais feridos, gerando forte repercussão nacional. Segundo dados da Europol, 18 dos 21 ataques classificados como terrorismo de esquerda ou anarquista na União Europeia em 2024 ocorreram na Itália. Diante desse cenário, o governo italiano reforçou seu discurso de segurança pública, e lembrou o risco de um retorno aos “anos de chumbo”, período marcado por violência política extrema no país. Como resposta, anunciou um decreto-lei com medidas mais rigorosas, incluindo maior proteção às forças policiais, punições mais duras para a violência política e novas regras voltadas a grupos juvenis, como restrições à venda de facas para menores e multas para os pais. Uma das medidas mais controversas permitiria à polícia deter preventivamente, por até 12 horas, pessoas suspeitas de causar distúrbios antes de manifestações. Especialistas alertam que essa proposta pode ser considerada inconstitucional e violar direitos fundamentais, já que prevê restrição de liberdade sem que um crime tenha sido de fato cometido. O texto destaca que iniciativas desse tipo refletem uma tendência mais ampla na Europa de ampliar políticas de segurança diante do aumento das tensões políticas.
21/02/2026 • 02:02
As revistas semanais na França continuam a dar destaque ao escândalo Epstein, o financista americano que aliciava menores de idade para encontros sexuais e grandes festas com personalidades internacionais, políticos e membros da realeza europeia. A divulgação de mais uma parte dos arquivos pela Justiça dos Estados Unidos revela a amplitude de contatos e rede de favores forjada pelo criminoso sexual que foi encontrado morto em uma prisão de Nova York, em 2019. Segundo a revista Le Point, o caso entrou em uma fase de chantagem política liderada por Ghislaine Maxwell, ex-companheira e cúmplice de Epstein, que, de sua cela no Texas, oferece revelar a "verdade" sobre o envolvimento de figuras como Donald Trump e Bill Clinton em troca de um perdão presidencial. A publicação detalha a queda de ícones franceses, como o ex-ministro Jack Lang e sua filha Caroline, investigados por "lavagem de fraude fiscal agravada" devido a vínculos financeiros com Epstein. Além disso, a revista explora o impacto devastador no Reino Unido, onde a proximidade do ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, o diplomata trabalhista Peter Mandelson com o bilionário ameaça o governo do primeiro-ministro, Keir Starmer, e o príncipe Andrew permanece como uma figura central e embaraçosa para a monarquia. O semanário também analisa como o escândalo alimenta uma "epidemia de credulidade" e teorias conspiratórias que veem na rede de Epstein uma prova da "traição das elites" ocidentais. Instrumento de Trump Já a revista L'Obs foca na instrumentalização política do caso pelo presidente americano, Donald Trump, que utiliza os documentos desclassificados para desviar a atenção de suas próprias 38.000 menções nos arquivos e atacar figuras do campo democrata, como Bill Clinton, Bill Gates e Larry Summers. A análise destaca o paradoxo de Trump permanecer "de pé" enquanto a elite progressista é bombardeada por revelações, muitas vezes minuciosamente selecionadas pela sua administração para poupar aliados. A revista traz ainda um alerta sobre o ressurgimento de fantasmas antissemitas, onde o fato de Epstein ser judeu é usado para reativar mitos seculares de "concluiu judeu mundial" e "crimes rituais", obscurecendo os mecanismos sociais reais que permitiram a impunidade do predador. Conexão russa Por fim, a revista L’Express dedica-se a investigar a "conexão russa" de Epstein, sugerindo que ele pode ter atuado como um agente de influência de Moscou ou, no mínimo, um facilitador para o Kremlin. Segundo a publicação, Epstein utilizou sua expertise em paraísos fiscais para ajudar oligarcas russos a contornar sanções ocidentais e pode ter se inspirado nas técnicas de kompromat do FSB para controlar seu próprio círculo de influência. Para os estrategistas russos, a exposição da "podridão" das elites ocidentais funciona como uma "arma nuclear" psicológica, servindo para desacreditar as democracias liberais e promover a imagem da Rússia como defensora de "valores tradicionais" contra um "Ocidente satânico".
14/02/2026 • 02:11
Os Estados Unidos dominam as páginas das principais revistas francesas nesta semana. As publicações semanais se concentram em três principais assuntos: os novos documentos do caso do financista e criminoso sexual Jeffrey Epstein, as truculentas operações dos agentes federais do ICE e a parceria abalada entre os serviços de Inteligência europeus e americanos. A revista Le Point aborda os vínculos do presidente americano, Donald Trump, com Jeffrey Epstein, que morreu na prisão em 2019. "O caso que faz os Estados Unidos tremerem" é a manchete na capa estampada com uma antiga foto de Epstein ao lado de Trump. O pesadelo recomeçou há pouco mais de uma semana, quando o procurador-geral adjunto, Todd Blanche, anunciou a publicação de três milhões de novos documentos relativos ao caso Epstein, entre eles, dois mil vídeos e 180 mil fotografias. No entanto, todos os elementos de pornografia infantil, os conteúdos ligados a investigações federais em andamento e os documentos protegidos por sigilo profissional foram retirados. Ainda assim, Blanche garante que nenhum elemento que pudesse ter relação com Trump foi ocultado por seus serviços. "Anomalia significativa e sintomática da era Trump", diz a Le Point, que lembra que antes de ingressar no Departamento de Justiça, em 2024, o procurador-geral adjunto era advogado do presidente americano. Durante muito tempo próximo de Jeffrey Epstein, o líder republicano, nega há anos ter tido conhecimento das ações pedófilas de Epstein, "contra toda coerência", reitera a matéria. Em uma nova tentativa de abafar o caso, o presidente americano sugeriu na terça-feira (3) virar a página do escândalo. “Não saiu nada sobre mim, exceto que foi uma conspiração contra mim, literalmente, por parte de Epstein e outras pessoas. Mas acho que já está na hora de o país, talvez, pensar em outra coisa, como a saúde, ou algo que importe às pessoas”, disse. Segundo o jornal New York Times, o nome de Trump, sua residência em Mar‑a‑Lago, na Flórida, e outras referências ao líder republicano são mencionados 38 mil vezes nos arquivos do Departamento de Justiça divulgados em 30 de janeiro. Mas, o bilionário alega que a nova leva de documentos “o absolve de qualquer irregularidade”, insistindo que sua relação com Epstein terminou há mais de 20 anos. Minneapolis no olho do furacão Além do "terremoto" do caso Epstein, os Estados Unidos são palco de um outro fenônemo: a revolta contra as violentas operações da polícia de imigração. A revista Le Nouvel Obs publica uma reportagem de sua enviada especial a Minneapolis, no "olho do furacão" após a morte de dois cidadãos em janeiro que enfrentaram membros do ICE, "o símbolo do inexorável mergulho dos Estados Unidos no autoritarismo". Com a perseguição dos imigrantes, muitos deles com status legal, a política de imigração de Trump "semeia o terror" e se espalha pelas grandes cidades do país com prisões cruéis e arbitrárias. De acordo com a revista, foi a morte a tiros de Renee Nicole Good e Alex Pretti que revelaram ao mundo "a selvageria e o amadorismo desta polícia fora da lei". Entrevistados pela reportagem da Nouvel Obs, especialistas em Direito destacam a ilegalidade destas operações. "O governo ultrapassa os limites do Estado de Direito", diz Julia Decker, diretora de política do Centro dos Diretos dos Imigrantes do Minnesota. Para a revista, a confusão que Trump faz entre imigração e terrorismo legitima seus métodos criminosos. Parceria abalada entre EUA e Europa "CIA: os espiões de Trump que preocupam a Europa" é a manchete da revista L'Express desta semana. A publicação questiona se com o líder republicano embaralhando a geopolítica, os países europeus manterão sua cooperação com os Estados Unidos na área da Inteligência. "Como viver sem a CIA?", questiona a revista, ressaltando a dependência europeia dos serviços secretos americanos. Segundo a L'Express, até recentemente, "espiões americanos abasteciam amplamente a Direção de Inteligência Militar francesa". A semanal apurou que operações conjuntas entre os Estados Unidos e a Europa continuam sendo realizadas atualmente. A França e os Estados Unidos chegam até mesmo a compartilhar nomes de espiões que arriscam suas vidas em países perigosos em nome da segurança, garante. Mas, diante do conchavo entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, além das ambições territoriais americanas na Groenlândia, "a Europa terá de acabar com a parceria?", pergunta a L'Express. O questionamento foi levantado pela revista a cerca de 40 responsáveis dos serviços de Inteligência de países europeus e a resposta foi unânime: a Europa precisa aprender a trabalhar sem a CIA e considerar Washington como "um antigo aliado" ou até como "um potencial inimigo".
07/02/2026 • 02:04
Segundo os semanários franceses Le Point e L’Express, Minneapolis, cidade do estado de Minnesota nos Estados Unidos marcada pela morte de George Floyd em 2020, enfrenta uma grave crise: de um lado, moradores organizam resistência à ICE, agência de imigração que caça imigrantes sem documentação; de outro, a agência se tornou um negócio bilionário para aliados de Donald Trump. Le Point destaca a mobilização cidadã, enquanto L’Express mostra a politização e a impunidade da ICE. Minneapolis, cidade do estado de Minnesota conhecida mundialmente após a morte de George Floyd em 2020, vive hoje uma crise intensa envolvendo a ICE, agência federal de imigração e alfândega dos Estados Unidos. Moradores se mobilizam para resistir às ações de agentes que perseguem imigrantes sem documentação, enquanto, segundo Le Point e L’Express, a mesma agência se tornou um negócio bilionário para aliados do ex-presidente Donald Trump. Em reportagens detalhadas, Le Point descreve a rotina de moradores como Juan, que se organiza para vigiar e seguir veículos da ICE pelas ruas da cidade. Armados com apitos e redes de comunicação, grupos comunitários alertam vizinhos, levam comida a quem não se sente seguro para sair de casa e registram abusos cometidos pelos agentes. A mobilização acontece pouco depois do assassinato de Renee Good, mãe de família de 37 anos, morta por um agente da ICE em janeiro, e tem como objetivo evitar novos abusos. Segundo Le Point, Juan se tornou “patrulheiro”, dedicando parte de suas semanas a monitorar operações da agência. Ele mantém binóculos e anotações à mão, observa padrões de ação da ICE e registra qualquer tentativa de intimidação, mas reforça que não realiza ações ilegais. A cidade também adotou medidas como aulas online temporárias em alguns bairros, reforço de redes comunitárias e vigilância coletiva, buscando proteger residentes vulneráveis e manter a mobilização organizada. Leia tambémO jogo virou? Influenciador próximo de Trump compara ICE à polícia política da Alemanha nazista Máquina de lucro para aliados de Trump Já a revista L’Express enfatiza a dimensão financeira e política da ICE. A agência se transformou em uma verdadeira máquina de lucro para aliados de Trump, com contratos e consultorias bilionárias gerando ganhos privados a partir de políticas de expulsão em massa. Um exemplo citado é o de Tom Homan, ex-diretor da ICE, que, segundo investigação do FBI, ofereceu contratos federais prometendo lucros a clientes ligados ao governo caso Trump retornasse à presidência. Além disso, L’Express relata que a promulgação da lei One Big Beautiful Bill Act (OBBBA), em julho de 2025, triplicou o orçamento da ICE para US$ 27,7 bilhões por ano, tornando a agência a primeira força federal do país em termos de recursos financeiros. A lei permitiu que a ICE atuasse com métodos muitas vezes questionáveis, com agentes protegidos por imunidade praticamente absoluta, enquanto operações de deportação atingem tanto imigrantes quanto cidadãos norte-americanos, como no caso de Renee Good. Leia tambémTrump ameaça usar Forças Armadas contra 'ataques' à polícia de imigração em Minneapolis A polarização em Minneapolis reflete o contraste entre resistência comunitária e poder da agência. Le Point mostra que moradores, apesar do frio intenso e do clima tenso, mantêm disciplina e método. O monitoramento da ICE é feito com cuidado: sinalizações por apitos, acompanhamento visual, registro de veículos e denúncias às autoridades quando há abuso. A cidade tenta impedir que a violência se espalhe e proteger a população mais vulnerável. Por outro lado, L’Express evidencia que o aparato da ICE funciona quase como um sistema paralelo, politizado e lucrativo, apoiado por aliados do governo e empresas privadas de segurança. Firmas como Constellis Holdings, resultado da fusão de antigas empresas militares privadas, recebem milhões de dólares e se beneficiam diretamente da estrutura de deportações em massa, sem que exista responsabilidade clara sobre abusos cometidos.
24/01/2026 • 02:05